conselho

hoje, uma jovem me pediu conselho de carreira.

só tenho um, dividido em três partes:

evite ao máximo trabalhar, para não ser tentada a consumir.

evite ao máximo consumir, para não precisar trabalhar.

evite ao máximo procriar, para não usar a prole como desculpa para vender sua alma ao mercado de trabalho e ao mundo de consumo, fazendo concessões que jamais faria por si mesma.

evitando essas três armadilhas, o mundo vai se abrir para você em infinitas possibilidades.

ou não.

na pior das hipóteses, sua vida vai ser muito mais simples.

filial do inferno

hoje, comprei um laptop em uma grande rede varejista.

na loja em si, onde fica o mostruário e os vendedores, o clima era refrigerado; as luzes, claras; a limpeza, impecável.

aí, paguei.

então, fui enviado para o setor de entrega de mercadorias: um porão escuro e quente, poucas luzes e nenhuma refrigeração, paredes manchadas e funcionários suados.

obrigado, grande cadeia varejista que não vou nomear, por ser um símbolo tão perfeito e concreto do capitalismo.

distópicas e luditas

de repente, na rua, alguém fala comigo.

abro a boca para responder…

e a pessoa passa por mim como se eu fosse um fantasma:

estava apenas falando em seu fone bluetooth, totalmente imersa em seus próprios problemas, tratando a rua pública como se fosse uma esteira rolante por onde desliza fantasmagoricamente, sem estar realmente presente, enquanto resolve suas questões virtuais com pessoas virtuais através de uma tecnologia virtual.

errado sou eu de achar que a rua é um espaço público para interação concreta entre pessoas de carne e osso.

* * *

infelizmente, não aprendo. meus instintos ainda são totalmente antiquados, completamente século XIX:

sempre levanto os olhos otimista, achando que estão falando comigo, achando que estou prestes a embarcar em mais uma interação humana…

sempre abaixo os olhos cabisbaixo, sem conseguir reprimir uma inexplicável pontada de desamor e solidão.

* * *

outro dia, em copacabana, aconteceu de novo.

levantei os olhos para o moço, mas ele não estava falando comigo.

entretanto, pasmem!, conferi uma orelha, verifiquei a outra: nenhum fone!

era um maluco à moda antiga, falando sozinho pelas esquinas do bairro.

ninguém entende, mas aquilo me trouxe tanta esperança.

as cinco lembranças

- adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

– envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

– morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

– tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

– somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

eu mereço

chegamos à conclusão que sempre, sempre, que usamos a frase “eu mereço”, é porque estamos prestes a fazer uma merda. pior: normalmente é uma merda relacionada ao consumo.

não dizemos “eu mereço comer uma deliciosa e saudável saladinha orgânica”, e sim “eu mereço tomar um milkshake desta mega corporação que paga mal seus funcionários e faz propagandas que remetem à felicidade e padrões de sucesso”.

não pensamos “eu mereço ir caminhar pela praia numa manhã fresca”, e sim “eu mereço passar o dia inteiro binge-watching seriados babacas e cheios de violência.”

nossas vidas são programadas para que essa frase seja seguida de consumo. todo dia merecemos enfiar o pé na jaca porque o trabalho foi duro (se não fosse duro, não seria trabalho) ou porque estamos engolindo sapos, ou porque finalmente chegaram as férias.

uma vida que nos esgota menos também nos faz precisar compensar menos. de forma bem prática, vivendo com menos dinheiro e menos demandas, deixamos de “merecer” o consumo, pois ele se torna menos relevante.

amigos amigos, ex-es à parte

ano passado fiz uma viagem deliciosa com o meu companheiro, a ex-esposa dele e o namorado dela. embora ela more no exterior, eles ainda mantém contato e se ajudam sempre que precisam. é muito bonito ver um relacionamento assim.

eu, pessoalmente, adoraria manter uma amizade com as pessoas com quem me relacionei no passado. nenhum relacionamento meu acabou com problemas de violência ou falta de respeito. acredito que, por mais que tenham chegado ao fim, os momentos de intimidade, carinho e confiança são impossíveis de apagar.

mesmo acabando de forma pacífica, em muitos casos ficou a mágoa. eu não gostaria de causar mágoa novamente e, pra não dizer que não há um pouquinho de egoísmo aí, a mágoa que perdura também já gerou desconforto em mim (já fui até alvo de fofoca criada por ex entre as pessoas de nosso círculo.)

para evitar repetir essa mágoa, escutei muitas amigas e amigos contando suas histórias de relacionamentos passados, além de contar as minhas. conheci razões de onde, muitas vezes, o ressentimento aparece: dependência & não reconhecimento.

dependências

a dependência emocional pode se disfarçar de romance. quem costuma “mergulhar fundo” em relacionamentos, “se doar inteiramente” e considerar a outra pessoa como “a outra metade da laranja” costuma se magoar profundamente quando o relacionamento termina. descobri que quando alguém diz “você é tudo pra mim”, é mais adequado me preocupar do que me lisonjear. soube de ex que pediu para a noiva ficar, mesmo depois do fim do relacionamento, pois não tinha um outro ombro para chorar.

no caso de uma amiga, pra piorar, houve ainda um toque da nossa sociedade machista: o marido dependia financeiramente dela e continuou assim, indiretamente, depois do relacionamento acabar. isso pode ser especialmente emasculante para um homem na nossa sociedade. esta é uma daquelas interseções em que o machismo também prejudica os homens. não era fácil estar ao lado de uma mulher que a sociedade considera mais “bem sucedida” (lembrando que o que uma sociedade horripilante considera como sucesso nem sempre é positivo.)

quando um relacionamento com estas dependências chega ao fim, é quase inevitável que a mágoa perdure e o contato fique prejudicado. mas é possível contornar essa situação. é só lembrar que somos laranjas inteiras se relacionando com laranjas também inteiras. nunca fui romântica e a última vez que sofri “por amor” foi na adolescência, então sei que pra mim é fácil falar.

(não dá pra dizer que não deixo todo mundo avisado: um ex disse, quando terminamos, que já devia suspeitar que eu era fria e calculista quando respondi o primeiro “eu te amo” com “obrigada”. pois é, fio, devia suspeitar mesmo rs.)

em relacionamentos baseados no amor romântico é difícil até começar a falar disso: muitas vezes existe a crença de que existe um amor único para toda a vida, e qualquer relacionamento que termine é considerado “um fracasso”. pensar em amor considerando o fim, portanto, já é um tabu por si só.

o clone

outra razão para o preferir-não-ver é o não reconhecimento.

o ale escreveu sobre isso no seu blog: a impressão que temos com alguém de quem nos separamos é que aquela pessoa é um clone. ela é muito parecida com quem você amou. a fisionomia, a voz e os gestos são os mesmos. mas é outra pessoa. e ver “o clone” é como ver uma assombração, uma lembrança de alguém que, de certo modo, morreu.

acho que é ainda pior: não só a pessoa amada morreu, mas o clone é quem a matou. no passado, achei que era infantilidade preferir se afastar. pensava “poxa vida, depois de tudo que passamos e não quer me ver? por quê?”. pensava que talvez com o tempo essa infantilidade passasse. mas, na realidade, ninguém tem obrigação de perdoar quem matou a pessoa amada, não importa quanto tempo passe. conheço pessoas que tiveram relacionamentos saudáveis e sem dependências, mas ainda assim preferem não ficar olhando para o clone assombrado.

em um dos meus mais longos relacionamentos, eu fui o clone. mudei tanto, mas tanto, que fiquei irreconhecível para mim mesma.

eu vivia uma vida correta e esperada, daquelas que poderiam estrelar frequentemente o classe média sofre. mas comecei a me incomodar. não com o relacionamento nem com o meu companheiro: comecei a me incomodar comigo mesma.

o tempo foi passando, e eu percebi que não queria ser essa pessoa. tudo que eu queria era viver uma vida mais simples e ter mais tempo para começar a olhar para os outros seres à minha volta. tudo que eu queria era mandar dormir aquela eu coxinha-empresária-bem-sucedida e reacordar aquela eu que fez ciências sociais, feminazi-peluda-esquerdopata-poliamorosa.

essa mudança não é pouca. é grande (principalmente a parte do poliamor, que envolve o relacionamento mais que diretamente, e que não era vontade dele.) mas me era necessária. e a fiz. quando terminei o relacionamento, eu já era o clone.

depois de um tempo, ao invés de perguntar “por que você não quer me ver?”, percebi que talvez a única coisa a se dizer é “desculpe por ter matado a pessoa que você amava”. ou, melhor ainda, ficar no silêncio.

“If you press me to say why I loved him, I can say no more than because he was he, and I was I.”
michel de montaigne, sobre o amor. “eu o amo porque eu sou eu e ele é ele” – mas… e se eu deixar de ser eu? e se ele deixar de ser ele?

é difícil contornar essa situação. às vezes a mudança é muito radical e o clone nos lembra de alguém muito diferente do que é hoje. ou, como diz o ale, o clone talvez nos lembre de alguém que sequer existiu, se não nas nossas expectativas. é preciso, antes de tudo, nos conhecermos (aquela insatisfação que nos consome costuma vir de dentro.) depois disso, nos abrirmos e nos aproximamos. a gente já sabe fazer isso: que tal amores mais parecidos com amizades?

criei, em conjunto, novos relacionamentos. e percebi que mantê-los livres e leves os protegem. talvez seja um dos caminhos para menos mágoas.

a felicidade pode ser uma prisão

“toda pessoa feliz deveria ter alguém com um martelo à sua porta para bater e lembrá-la que existem pessoas infelizes e que, independente do quanto ela está feliz, a vida logo vai mostrar suas garras, algum infortúnio vai acontecer – doença, pobreza, perdas, e aí ninguém vai vê-la ou ouví-la, assim como ela agora não vê nem ouve ninguém.” – personagem do conto gooseberries, de chekhov.

existem momentos em que me bate uma felicidade imensa. quando vejo meu trabalho me permitindo liberdade, quando estou sentindo o cheiro da pessoa que me acompanha, quando estou nadando, quando estou tomando sopa, quando estou conversando com pessoas amigas, quando vejo tudo isso acontecendo calmamente. todos os dias sinto a felicidade se fazendo presente.

momentos como estes me deixam preocupada. não quero que seja necessária uma martelada para lembrar que isso é um privilégio.

o desafio agora é: que a felicidade venha, passe, seja sentida. mas que ela não seja um prisão. que ela gere gratidão, mas sem que pra isso seja necessário deixar de ver e ouvir o outro ser.

a leitura indicada pra quem quer alongar essa discussão é, claro, a prisão felicidade do alex. a citação de chekhov foi ele que me apresentou, nota-se, e a traduzi livremente de uma versão em inglês.

menos comentários, mais feedback

poucas coisas têm me dado tanto prazer quanto o meu newsletter.

há muito tempo, em uma blogosfera distante, os posts geravam comentários interessantes e discussões frutíferas. essa fase, porém, acabou: as caixas de comentários viraram filiais do inferno.

as newsletters, por seu lado, permitem um contato ao mesmo tempo mais próximo e mais generoso com as pessoas leitoras.

hoje, por exemplo, minha newsletter tem quase três mil assinantes.

pelas últimas semanas, venho escrevendo a prisão patriotismo, que deve ser publicada no começo do mês que vem.

já enviei duas prévias para as pessoas assinantes e recebi dezenas de emails inteligentes e afiados, com críticas, feedback e sugestões que já modificaram e melhoram o texto de forma significativa.

nenhum dos emails continham ofensas, xingamentos e trollagens.

muito obrigada a todas as pessoas assinantes.

quer assinar também?

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o link acima é para a newsletter pessoal do alex castro.

para acompanhar todos os posts do menos.vc, coloque seu email no formulário no rodapé da página (infelizmente, não dá para as pessoas leitoras responderem.)

para acompanhar a newsletter dominical do alessandro martins, outro autor do menos.vc, clique aqui. (é muito, muito legal.)

menos necessidade de dinheiro para viajar

estou viajando pelo Brasil desde janeiro com as seguintes regras:

  • não manipular dinheiro.
  • não trabalhar por dinheiro.

eu viajo pegando carona na beira da estrada. a hospedagem e a alimentação são feitas na casa de pessoas que vou conhecendo no caminho, pessoalmente ou pela internet.

existem muitas formas de se viajar. pode ser com pouco dinheiro, com muito dinheiro, trabalhando durante a viagem, etc. o que não podemos é deixar que a falta de dinheiro nos impeça de viajar.

uma tapioquinha

estou em belém. esta manhã, depois de ir ao banco, vejo uma senhora vendendo tapioquinha. hum, adoro! quero uma. ela disse: “senta ali na sombra, moça, que tá sol!” sentei. da sombra, observei a tapioquinha tomando forma.

lá foi ela. coloca a massa de tapioca na frigideira, em pequenas colheradas. com a mesma colher, vai espalhando tudo para formar a panquequinha. espera um pouquinho. sacode a frigideira e, num pulo, a tapioca já tinha virado pro outro lado. espera mais um pouquinho. abre espaço num pano de prato e coloca a tapioca esticadinha por cima. pega um pote de manteiga e, com uma faca, vai aos poucos besuntando a tapioca. primeiro, nas bordas do círculo. depois, no centro. a faca é colocada de lado. fecha o pote de manteiga e pega o pote de queijo. “o queijo está bem molinho, tá calor!” com uma colherzinha vai pegando um pouquinho de queijo e espalhando na tapioca. coloca um pouquinho aqui, outro pouquinho acolá. espalha, espalha, espalha. bota a tapioca, devidamente amanteigada e aqueijoada, na frigideira novamente. aquece um pouquinho e, com a colher, vai enrolando, enrolando (aqui no pará se come tapioca enroladinha, diferente de alguns outros locais do país onde se faz um pastelzinho.) tapioquinha devidamente enrolada, volta pro pano de prato. “é pra comer agora?” opa, com certeza. abre um pote, pega um guardanapo. dobra no meio, levanta a tapioca, coloca ela em cima. parece que está colocando a fralda num bebê, de tanta delicadeza. repete com outro guardanapo, desta vez fazendo uma trouxinha.

3 reais por uma deliciosa tapioquinha feita por uma senhora com um leve toc e muito carinho.