menos.vc

Hino minimalista

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últimas fofocas da vida do alex castro

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só leia se quiser saber fofocas pessoais. depois não diga que não avisei. (mais…)

a sua ajuda ajuda?

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nos eua e na europa, é comum pessoas brancas, ricas e bem-intencionadas passarem “férias-voluntárias”: durante o verão escolar, furam poços no zaire ou constroem casas populares na guatemala.

o problema é que não estão ajudando ninguém, só afagando o próprio ego.

como são quase sempre pessoas que não sabem nem os rudimentos de construção civil e, mais importante, que não podem levar esporro da chefe (pois são fofas e do bem e estão pagando para ajudar), acabam gerando o custo adicional de ter o seu trabalho refeito na surdina por profissionais competentes.

no fim das contas, se tivessem doado o dinheiro que gastaram em suas viagens de volunturistas, teriam gerado empregos e trazido renda para as comunidades locais.

mas aí, poxa, não teriam como mostrar às amigas do condomínio suas fotos tendo a “experiência” de pintar paredes na malásia! qual seria a graça disso?

* * *

um artigo ótimo de pippa biddle (em inglês): the problem with little white girls (and boys): why i stopped being a voluntourist // sobre a realidade brasileira: turismo na favela: exploração, progresso ou tico-tico no fubá? // um tumblr indispensável: fui à áfrica e tudo o que consegui foram essas fotos

seinfeld

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como pode seinfeld ser tão crítico do elitismo de quem está sempre buscando o último celular… e logo em seguida ser tão elitista em relação aos correios e às pessoas pobres que ainda necessitam desse serviço público?

ser menos substituível

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há muito tempo, em uma galáxia muito distante, a Outra Significativa (minha companheira) era uma pessoa-que-trabalhava-em-prédio.

um pouco insolente, ela vivia pedindo aumento. um dia, a chefa olhou para ela e disse:

“olha aqui, menina, o seu trabalho eu arrumo vinte que fazem igual. ninguém é insubstituível!

aquilo calou fundo. a chefa estava coberta de razão.

o mais sensato seria ter tomado consciência de sua insignificância, metido o rabinho entre as pernas e nunca mais pedido aumento.

já a Outra Significativa decidiu que nunca mais seria substituível.

* * *

hoje em dia, tanto eu quanto ela não temos nenhum vínculo empregatício ou institucional. ganhamos nosso dinheiro exclusivamente vendendo nosso serviço & nossa experiência, nossa produção e nosso conhecimento, para pessoas que nos acompanham & nos admiram, que querem consumir o nosso trabalho PORQUE é o nosso trabalho.

então, de manhã cedo, quando acordamos com preguiça, quando não estamos com vontade de levantar, quando imploramos para o outro nos deixar dormir mais um pouco, ouvimos sempre a mesma resposta:

“não dá pra você não ir. as pessoas pagaram para TE ver. pelo SEU trabalho. você é insubstituível. agora, aguenta!”

desapegar de pessoas

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lembro que, não faz muito tempo, eu acumulava pessoas à minha volta. “todo mundo tem uma história”, dizia eu para eu mesma, e por isso insistia em me relacionar com pessoas que nem sempre se encaixavam no meu momento de vida. eu vivia em situações em que, mais cedo ou mais tarde, pintava uma perguntinha na minha cabeça: “o que estou fazendo aqui?”

essa pergunta normalmente aparecia quando eu ouvia um comentário preconceituoso, quando se julgava negativamente alguém ou quando as conversas giravam em torno de pessoas, e não de ideias.

e eu, fingindo risadas de coisas que não achava graça e, pior ainda, repetindo comentários parecidos para não me sentir tão deslocada, terminava o dia sentindo vergonha de mim mesma e da minha carência.

a verdade é que sim, todo mundo tem uma história. mas para o dia a dia, para o relacionamento constante, é preciso que as histórias batam. que seja possível sentar com alguém e se sentir simplesmente… em segurança.

semana passada notei que no último ano essa pergunta não surge mais. notei que com um trabalho constante de desapego, é possível me manter rodeada de pessoas que acho interessantes (e, como dizem por aí, se você é a pessoa mais interessante da sala, procure mudar de sala.) pessoas que, muitas vezes, também já se fizeram a mesma pergunta.

eu podia ter notado isso em várias situações no último ano: podia ter sido durante as surubas vegetarianas com pessoas que não vou citar por respeito, durante as fotos nuas e peludas com o pessoal do coletivo além, ou ao usar a casa e as roupas da let enquanto ela gravava chamadas para seu programa de televisão. podia ter sido ao viajar pra ilha grande com amigos tão maravilhosos que nada que desse errado era um problema, podia ter sido ao participar de projetos de gente legal fazendo coisa legal (pessoal da tv folha, tv uol, espaço humus) ou podia ter sido durante os encontros com leitores do alex castro. podia ter sido na primeira, na segunda, ou na décima cama/sofá/colchão estranhos em que dormi em 2013, sendo hospedada por gente que é tão do bem que aceita estranhas da internet em casa e também podia ser ao encontrar tanta coisa em comum com a namorada de um amante (ou ex-amante? sei lá, pois todos vivemos relacionamentos livres sem muito começo ou fim.)

eu podia ter notado isso em várias dessas situações, mas só parei para pensar nesta noite específica. uma noite em que eu, meu companheiro e duas pessoas lindas que acabávamos de conhecer estávamos livres para sentar e conversar.

e uma dessas pessoas lindas nos contou sua história. uma história que além de conter uma vida adulta cheia das histórias que a vida adulta nos traz, me marcou por uma coisa: a juventude com bullying. e ela continuou contando: na época até marcou a data do suicídio e foi por um acaso do destino que ele não aconteceu.

e me lembrei da minha própria juventude: o bullying e o suicídio marcado e tentado. e foi por um acaso do destino que ele não aconteceu.

eu sonhei com essa pessoa linda esses dias. estávamos dançando em cima da cama!

foi neste dia que parei e percebi que ultimamente minha pergunta é: “por que será demorei tanto para estar aqui?”

as pessoas que não fazem mais parte da minha vida tiveram a sorte de se encontrarem. hoje, entendo como elas se sentem, pois também estou a encontrar e reencontrar meus pares.

imagem: quilt por Faith Ringgold

menos distração

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a nossa atenção, completa e irrestrita, não-interrompida e completamente no momento, sem atender o telefone e sem olhar para retângulos luminosos, é talvez o presente mais carinhoso e importante que podemos dar a outra pessoa.

falar “eu te amo” qualquer uma fala. amor verdadeiro é passar o almoço todo sem checar o facebook.

* * *

faz muito tempo, no começo de reuniões importantes e encontros românticos, eu gostava de teatralmente tirar o telefone do bolso, desligá-lo e dizer: “pronto, agora sou todo seu”.

não faço mais isso. não tenho mais celular.

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Margareth, a capitã de uma pousada deliciosa em Ilha Grande, me disse que de vez em quando acaba a luz na ilha. Algumas pessoas reclamam e ficam bravas porque o ar condicionado deixa de funcionar e fica muito quente. Na mesma noite em que ela contou isso… Acabou a luz! Era uma hora da manhã e realmente ficou quente demais para ficar dentro do quarto. Mas não reclamei, muito menos fiquei brava.

Saí do quarto e olhei pra cima: a lua quase cheia já tinha ido embora. Não havia nenhuma nuvem no céu. Era possível ver a via láctea assim, a olho nu. Aproveitei essa sorte sem igual para ficar a noite inteira olhando para o céu. Eram cinco da manhã, ainda sem energia elétrica, e fui dormir numa rede do pátio, me refrescando com o vento.

Quem é que tem coragem de reclamar de uma queda de luz assim? Gosto de ar condicionado, mas troco ele fácil fácil por um céu como este.

menos violência

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qual é a graça de tanta morte?

recentemente, parei de assistir todas as séries que se centravam em morte, sangue, crimes, etc: csi, law & order, criminal minds, mentalist, etc etc.

chega de autópsias na minha vida.

* * *

tanta morte ensina alguma coisa? nos ajuda a sermos pessoas melhores? comove? diverte?

esquecendo por um instante o mundo onde já vivemos, o que pensaríamos de pessoas que acham divertido passar duas horas vendo um maníaco com máscara de hockey matando pessoas, uma atrás da outra? o que essa idéia de diversão nos diz sobre essa pessoa? você gostaria de ficar preso no elevador ou de dormir ao lado de alguém que se diverte com mortes em série?

e, entretanto, fazemos isso todos os dias, não?

* * *

a sociedade tenta proteger ao máximo as crianças do sexo (um ato natural e lindo, mágico e necessário, a origem de toda a vida, algo que queremos que nossas crianças um dia pratiquem com prazer e responsabilidade), ao mesmo tempo em que as expõem a doses quase psicopatas de violência (algo que não queremos que jamais faça parte de suas vidas, nem como vítimas, nem como perpetradores).

não faz muito tempo, os estados unidos quase surtaram coletivamente porque um seio (um seio, meu deus!) de janet jackson escapou para fora do sutiã e foi visto em cadeia nacional por milhões de crianças – que assistem em média cerca de duzentos mil homicídios antes de completar dezoito anos.

* * *

o escritor russo anton tchecov tinha como um de seus objetivos artísticos escrever uma peça sem precisar utilizar os truques tradicionais (morte, violência, etc) para avançar o enredo.

em a gaivota (1896), ele quase consegue, mas sente necessário incluir um suicídio perto do final.

em sua última e maior peça, o jardim das cerejeiras (1904), sem nenhum lance violento ou emocional, sem precisar utilizar de nenhum truque barato, tchecov constrói uma das obras mais dramáticas, instigantes e desesperadoras de todos os tempos.

as artes narrativas do século xx devem muito à tchecov e ao jardim das cerejeiras.

não por acaso, é meu autor preferido.

* * *

será que os dramas e emoções da vida cotidiana já não bastam?

será que precisamos de assassinatos e de morte para nos arrancar da apatia, para fazer com que nos importemos pelos personagens, para sentirmos emoção verdadeira?

aliás, será que tanta morte consegue arrancar de nós emoção verdadeira ou será que está somente nos tornando ainda mais apáticos e insensíveis?

* * *

tire a violência absolutamente gratuita da obra de tarantino e o que sobra de filmes como cães de aluguel e kill bill?

qual é a graça de sentar no cinema e ver a uma thurman (ou o charles bronson, ou o clint eastwood, ou o jason, ou um tubarão branco, ou o predador, ou um vírus apocalíptico, ou uma nova era de gelo, ou um navio afundando, etc) matando uma pessoa atrás da outra?

qual foi o último filme realmente bem-sucedido que não incluía nenhuma morte violenta, ou que não tinha alguma morte como ponto fundamental da trama?

qual foi o último filme que você viu que celebrava a vida, caralho?!

* * *

nota necessária para as pessoas que se sentem atacadas por textos.

não, não estou dizendo que obras violentas são ruins e horríveis, ou que VOCÊ, ó pessoa leitora, é feia, chata e boba por consumir essas obras. estou só dizendo que EU cansei delas.

e não, menos ainda, não estou defendendo que obras violentas sejam censuradas ou proibidas só porque EU cansei delas. a arte deve ser livre.

também não estou criticando a violência como tema artístico em si. ela é um tema tão válido quanto o amor, o trabalho, a doença, o destino, a morte. o que me espanta é predomínio do tema: nossa produção cultural parece viver praticamente só de violência.

aliás, sempre que critico alguma obssessão por x, me aparecem alguns praticantes de x se sentindo atacados, como se eu tivesse falado deles. é como eu fazer um post sobre pessoas com transtornos alimentares que comem compulsivamente e vir alguém reclamar:

“ei, seu idiota, como você ousa falar mal de quem come? eu como três vezes por dia e não tem nada de errado comigo! você tem é preconceito contra as pessoas que comem! você é feio e bobo!”

menos pessoas

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em 2013, cancelei minha internet, abandonei celular e saí do msn, facebook, twitter. (o facebook e o twitter ainda existem, mas não são administrados por mim e não tenho acesso a eles.)

resultado: muitas pessoas que pareciam próximas simplesmente sumiram. não era amizade: você só era conveniente de conversar porque estava ali online. nada de mal nisso. fico feliz de ter podido ajudar enquanto foi possível.

mas, por outro lado, a falta das redes sociais te joga de novo nos braços das pessoas de carne e osso. daquelas dez ou quinze pessoas cuja presença concreta já basta para fazer da sua vida plena, interessante, bonita.

(leia o texto completo: acreditar no amor)