pessoas intrusivas

a pessoa insiste em vir me dizer, de forma carinhosa e educada, que eu tenho essa e aquela questão, e que ela acha que isso e aquilo poderia resolver.

diante disso, tenho três opções:

1. aceitar a intrusão (inaceitável);

2. tentar responder, também de forma carinhosa e educada, que por mais que eu goste dela e admire seu incrível trabalho, não tenho interesse algum em saber o que acha da minha vida e como eu poderia melhorá-la (mas isso não consigo dizer e, ainda por cima, minha experiência demonstra que é inútil);

então, só me resta:

3. me afastar.

* * *

por que achamos que temos direito de ter opinião sobre a vida das outras pessoas?

por que achamos, pior ainda, que temos direito de verbalizar essas opiniões?

um texto desenvolvendo um pouco essas questões.

outrofobia linguística

corrigir alguém publicamente é sempre uma tentativa agressiva de humilhar outra pessoa e, ao mesmo tempo, pavonear seus conhecimentos.

por mais que as rudes praticantes dessa arte neguem (“foi na boa”, “pra ajudar”, “gosto de ser corrigida quando erro”, etc), nunca vi exceção a essa regra.

incrivelmente, corrigir alguém “na boa” e “pra ajudar” é fácil: você puxa a pessoa para o canto da sala ou manda uma mensagem privada, e faz sua correção em termos cuidadosos, para que ela não se sinta (ou se sinta menos) inferiorizada ou envergonhada.

o assunto é entre vocês duas. ninguém precisa saber.

não perca o amiga para não perder a correção.

vacas felizes

um sonho.

que toda embalagem de carne orgânica tivesse uma pequena bio do animal que deu sua vida para nos alimentar.

“essa é a giselda, uma galinha. ela veio ao mundo no dia 3 de maio de 2013. ao longo da vida, ela botou 50 ovos, dos quais 10 chocaram. ela gostava de tomar sol encostada em uma mangueira. um dia, ela encarou um gato para defender sua ninhada. depois de viver uma vida bela e plena, giselda foi abatida no dia 20 de dezembro de 2014, para alimentar você e sua família.”

sei lá, acho até que eu voltava a comer bicho morto.

respondendo comentários

às vezes me perguntam:

“por que você não responde comentários na internet?”

porque nunca, nunca aconteceu de eu responder um comentário e, então, no dia seguinte, pensar:

“puxa, que bom que respondi aquele comentário ontem. foi mesmo a coisa certa a se fazer!”

manhãs de copacabana

adoro acordar com o dia ainda escuro, ver o sol lentamente surgindo por cima do morro do cantagalo, ver as gaivotas sobrevoando a praia de copacabana, sentir o leve cheiro de maresia que vem chegando, sentir o bairro despertando.

adoro acompanhar o movimento do sol dentro da minha casa. primeiro, ele bate na cama, depois, na rede, e vem entrando e entrando, e me empurrando pra dentro de casa, até que, nessa época do ano, lá pelas sete, o único lugar que me sobra na casa é o balcão, para tomar café e trabalhar.

adoro o cheiro de café que vai aparecendo, aqui e ali, de muitos dos 400 apartamentos que me cercam só no meu prédio.

adoro ouvir as crianças chegando, falando, brincando na creche que fica ao lado da minha janela, o solar meninos de luz.

adoro a alegria ensandecida da capitu, cachorra de apenas seis meses de idade, ao perceber que está viva e tem mais um dia pela frente.

adoro o meu café da manhã de café, ovo mexido, torradas com manteiga e fruta, o cheiro de cada uma dessas coisas me confortando, me preenchendo, me deliciando, me colocando já no clima do novo dia.

por fim, adoro um senhor negro, magro e alto que, todo dia, lá pelas onze e pouco, passa pela minha rua gritando “ó o almoço da quentinha”, simbolizando assim o final oficial de mais uma manhã no rio de janeiro.

cada dia mais eu comprovo. minha hora produtiva é a manhã. se já não fiz o meu melhor trabalho até a chegada do moço da quentinha, melhor dormir cedo e tentar de novo no dia seguinte.

* * *

foto: um típico nascer-do-sol em copacabana, por aaron frutman. acreditem ou não, tem um desses aqui todo dia. eu não canso.

em linhas gerais, na praia de copacabana o sol pode ser visto nascendo do outro lado da baía de guanabara, atrás das montanhas de niterói, e, na de ipanema, se pondo atrás do morro dois irmãos.

meu apartamento é voltado para a praia de copa, que está a três quarteirões de distância, mas não tem vista para o mar: eu só vejo suas gaivotas, sinto seu cheiro, adivinho sua presença.

conselho

hoje, uma jovem me pediu conselho de carreira.

só tenho um, dividido em três partes:

evite ao máximo trabalhar, para não ser tentada a consumir.

evite ao máximo consumir, para não precisar trabalhar.

evite ao máximo procriar, para não usar a prole como desculpa para vender sua alma ao mercado de trabalho e ao mundo de consumo, fazendo concessões que jamais faria por si mesma.

evitando essas três armadilhas, o mundo vai se abrir para você em infinitas possibilidades.

ou não.

na pior das hipóteses, sua vida vai ser muito mais simples.

filial do inferno

hoje, comprei um laptop em uma grande rede varejista.

na loja em si, onde fica o mostruário e os vendedores, o clima era refrigerado; as luzes, claras; a limpeza, impecável.

aí, paguei.

então, fui enviado para o setor de entrega de mercadorias: um porão escuro e quente, poucas luzes e nenhuma refrigeração, paredes manchadas e funcionários suados.

obrigado, grande cadeia varejista que não vou nomear, por ser um símbolo tão perfeito e concreto do capitalismo.

distópicas e luditas

de repente, na rua, alguém fala comigo.

abro a boca para responder…

e a pessoa passa por mim como se eu fosse um fantasma:

estava apenas falando em seu fone bluetooth, totalmente imersa em seus próprios problemas, tratando a rua pública como se fosse uma esteira rolante por onde desliza fantasmagoricamente, sem estar realmente presente, enquanto resolve suas questões virtuais com pessoas virtuais através de uma tecnologia virtual.

errado sou eu de achar que a rua é um espaço público para interação concreta entre pessoas de carne e osso.

* * *

infelizmente, não aprendo. meus instintos ainda são totalmente antiquados, completamente século XIX:

sempre levanto os olhos otimista, achando que estão falando comigo, achando que estou prestes a embarcar em mais uma interação humana…

sempre abaixo os olhos cabisbaixo, sem conseguir reprimir uma inexplicável pontada de desamor e solidão.

* * *

outro dia, em copacabana, aconteceu de novo.

levantei os olhos para o moço, mas ele não estava falando comigo.

entretanto, pasmem!, conferi uma orelha, verifiquei a outra: nenhum fone!

era um maluco à moda antiga, falando sozinho pelas esquinas do bairro.

ninguém entende, mas aquilo me trouxe tanta esperança.