porque a rejeição dói tanto

por que sofremos tanto ao terminar um relacionamento ou sair de um trabalho?

resposta: ego, narcisismo, vaidade, apego.

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relacionamento e trabalho são algumas das principais maneiras de criarmos identidades.

não somos nunca apenas o “paulo” ou a “joana”. somos o “paulo da maria teresa”. somos a “joana da petrobrás”.

essas identidades nos dão apoio, respaldo, contexto social. ajudam a sufocar um pouco o vazio existencial que nos oprime.

por isso, ser rejeitado pela maria teresa ou despedida da petrobrás dói tanto.

porque não é só um relacionamento ou um emprego que se vai.

perdemos também aquela personagem que investimos tanto esforço em criar, cultivar, consolidar.

e nem mesmo a certeza de que em breve estaremos em outro relacionamento, em outro emprego, serve para mitigar um pouco desse enorme luto narcísico pelo falecimento de mais uma de nossas tantas identidades.

nunca mais seremos o “paulo da maria teresa”. nunca mais seremos a “joana da petrobrás”.

apesar de tanto trabalho, somos de novo só o “paulo”, só a “joana”, pequenas e solitárias criaturas primatas, vivendo suas vidas sem sentido na superfície de uma bola de pedra girando em torno de si mesma e se deslocando em círculos pela vastidão vazia do espaço.

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a intensidade da nossa dor é diretamente proporcional à intensidade de nossa fé na existência concreta dessas identidades ficcionais que inventamos.

é tudo ego, é tudo vaidade, é tudo apego, é tudo narcisismo.

acreditamos que, do lado de cá dessa camada de pele, existe o eu, minha identidade, minha reputação, coisas que podem ser protegidas e preservadas; e, do lado de lá dessa camada de pele, existe o universo, as outras pessoas, os passarinhos, os meteoros.

mas é tudo ilusão. uma ilusão insustentável. uma ilusão que nos causa imensa dor sempre que se desfaz, desaba, despenca, desaparece.

não existe eu aqui e o universo ali. só existe o universo.

livros de colorir

as pessoas desejam livros desesperadamente, porque foram convencidas de que “ler é importante” e querem comprar a identidade de “pessoa-que-lê”, mas, ao mesmo tempo, não gostam de ler e não têm prazer algum no processo. pra piorar, sentem uma natural repulsa por pagar caro por objetos que não vão usar.

então? qual a solução? como comprar livros, sentir que foram “usados” e evitar a chatice da leitura?

como sempre, o livre-mercado está pronto para suprir as demandas que ele mesmo cria.

hoje, vivemos em um mundo onde pessoas adultas não só leem empolgadamente livros infantis mas também compram (e presumivelmente colorem) livros de colorir.

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sobre o lobby da leitura, ver seção “ler menos para saber mais”, da prisão verdade.

sobre comprar identidades, ver seções “se você pudesse fazer qualquer coisa… o que faria?” e “a gente não quer o que a gente quer”, da prisão trabalho.

e um vídeozinho: adults go wild over latest in children’s picture book series

impor limites é empático?

“querida pessoa,

tenho interesse em tudo o que você tem a me contar. adoraria ouvir suas histórias, suas impressões, seus pensamentos. pode me falar da sua vida, da sua infância, das suas memórias, das suas dores.

com um limite.

se você vem me dizer o que acha da minha vida, o que teria feito no meu lugar, o que acha que eu deveria ter feito, eu vou me sentir invadido. eu não te dei essa liberdade, eu não pedi seu conselho.

se você insistir nesse comportamento, eu vou ter que me afastar.”

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em geral, quando alguém dá pitaco na minha vida, eu só peço licença, alego dor de cabeça e não procuro mais a pessoa.

essa semana, como um experimento, falei uma variação do texto acima para duas pessoas da minha família.

ainda não sei se é o melhor caminho.

as pessoas acreditam piamente que têm o direito divino de se meter na vida de todo mundo e, quando encontram a mínima resistência, ainda se sentem agredidas:

“quanta grosseria vinda de um cara que escreve sobre empatia, viu!?”

como observou são brecht, fala-se muito das águas violentas do rio e pouco da violência das margens.

mas não existe sem a outra: quanto mais estreitas forem as margens, mais violento será o rio.

talvez a opção mais empática seja mesmo simplesmente me afastar.

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dois exercícios de empatia, sobre cultivar o não-conhecimento e exercer a não-opinião.

o céu está sempre azul

o céu está sempre azul e o sol está sempre brilhando.

talvez exista até algum obstáculo momentâneo impedindo a visão mas, acima dessas nuvens, do outro lado desse planeta, o céu está sempre azul e o sol está sempre brilhando.

nos meus momentos de depressão, esse pensamento me alegra.

(da série: “coisas que só se percebe na prática observando o céu enquanto se dirige mil quilômetros em um só dia pelos andes e pelos pampas.”)

minha técnica para lidar com conselhos não-solicitados

quando a pessoa começa a dar o conselho não-solicitado, eu dou mute nela dentro da minha cabeça;

fico pensando em outra coisa enquanto ela está mexendo a boca;

quando vejo que ela parou de mexer a boca, eu seguro em sua mão, dou um sorriso caloroso e verdadeiro e digo, “poxa, muito, muito obrigado mesmo pelo seu carinho, infelizmente, agora eu tenho que correr, mas vou levar suas palavras no coração por toda a vida”;

vou embora e passo a evitar essa pessoa.

tem funcionado muito bem pelos últimos 41 anos. a maior vantagem é pouco a pouco ir construindo um círculo de amizades de pessoas que não se metem nas vidas umas das outras.

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dois exercícios de empatia sobre dar e receber conselhos: cultivar o não-conhecimento & exercer a não-opinião

nunca é besteira

a coisa que irritou a outra pessoa nunca é uma besteira. por definição.

se fosse, ela não teria se irritado.

e, se você diz isso, além de ter cometido a “besteira”, ainda está tripudiando dos sentimentos e das prioridades da pessoa que está com você.

pessoas intrusivas

a pessoa insiste em vir me dizer, de forma carinhosa e educada, que eu tenho essa e aquela questão, e que ela acha que isso e aquilo poderia resolver.

diante disso, tenho três opções:

1. aceitar a intrusão (inaceitável);

2. tentar responder, também de forma carinhosa e educada, que por mais que eu goste dela e admire seu incrível trabalho, não tenho interesse algum em saber o que acha da minha vida e como eu poderia melhorá-la (mas isso não consigo dizer e, ainda por cima, minha experiência demonstra que é inútil);

então, só me resta:

3. me afastar.

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por que achamos que temos direito de ter opinião sobre a vida das outras pessoas?

por que achamos, pior ainda, que temos direito de verbalizar essas opiniões?

um texto desenvolvendo um pouco essas questões.

outrofobia linguística

corrigir alguém publicamente é sempre uma tentativa agressiva de humilhar outra pessoa e, ao mesmo tempo, pavonear seus conhecimentos.

por mais que as rudes praticantes dessa arte neguem (“foi na boa”, “pra ajudar”, “gosto de ser corrigida quando erro”, etc), nunca vi exceção a essa regra.

incrivelmente, corrigir alguém “na boa” e “pra ajudar” é fácil: você puxa a pessoa para o canto da sala ou manda uma mensagem privada, e faz sua correção em termos cuidadosos, para que ela não se sinta (ou se sinta menos) inferiorizada ou envergonhada.

o assunto é entre vocês duas. ninguém precisa saber.

não perca o amiga para não perder a correção.

vacas felizes

um sonho.

que toda embalagem de carne orgânica tivesse uma pequena bio do animal que deu sua vida para nos alimentar.

“essa é a giselda, uma galinha. ela veio ao mundo no dia 3 de maio de 2013. ao longo da vida, ela botou 50 ovos, dos quais 10 chocaram. ela gostava de tomar sol encostada em uma mangueira. um dia, ela encarou um gato para defender sua ninhada. depois de viver uma vida bela e plena, giselda foi abatida no dia 20 de dezembro de 2014, para alimentar você e sua família.”

sei lá, acho até que eu voltava a comer bicho morto.